A manhã ainda estava escura, e o portão da escola estava
fechado quando chegou. Sem rodeios apertou o interfone e esperou que fosse
alguém o atender. O guardinha veio, com a cara fria e morta de tédio, talvez já
cansado do trabalho.
- Sim? – perguntou.
- Sou o aluno novo...
- Pedro, filho do Sanches? – o guardinha completou bocejando
no final.
O menino apenas assentiu e sorriu. Não sabia como, mas
alguém além do chefe do escritório conhecia Sanches.
Deixando essas coisas de lado, entrou e se sentou no
refeitório, que parecia bem mais uma lanchonete do Mc Donald’s. Ficou ali,
parado. Olhando para os bebedouros velhos e com a lataria embaçada por causa da
água gelada. Não demorou muito, ouviu o portão se abrir novamente. Olhou e viu que
agora um número maior de estudantes estava entrando. Começou a se sentir
inseguro, principalmente porque não sabia nem em que sala ia estudar.
- Com licença? – uma voz feminina o chamou.
- Sim?
- Você é o aluno novo?
A garota era simples e tinha cara de quem gostava muito de
estudar. Pedro assentiu e ela sorriu se sentando ao seu lado.
- Sou Maria. Estou na sua turma.
Ele sorriu novamente. Começaram a conversar sobre assuntos
que não são pertinentes. Falaram sobre bandas, programas humorísticos e sobre
animais – assuntos que todos nós conseguimos manter por um longo tempo.
Passou-se alguns minutos e alunos de todos os tipos,
gêneros, gostos e cabelos começaram a se sentar a sua volta. Todos, ora falando
com Maria, ora com Pedro. Perguntavam sobre o assunto intercâmbio, música e
piadas. Não mudava muito. E o que mais assustava Pedro era uma coisa:
_ E aí Pedro...? – um garoto chamado Carlos perguntou. –
Como o seu Sanches está?
Sim. Todos conheciam o pai de Pedro. Parecia que ele era
algum tipo de celebridade. Pedro só conseguia responder as perguntas, sem fazer
outras. A turma era animada e logo ele já estava sendo tratado como qualquer um
– não que ele não gostasse.
Começaram a puxar assunto sobre as férias. Alguns haviam se
encontrado bastante – marcando um fut com os amigos, boliche ou até mesmo
passar a tarde no shopping. Pedro apenas ficava observando. Prestava atenção no
que os garotos falavam e depois olhava para outro grupinho e assim se passou os
15 minutos mais demorados da vida dele.
O sinal soou e ele foi atrás de uns garotos que gritavam e
diziam coisas sem sentido. Ele só sabia o nome do mais simpático, e também o
mais tagarela – Felipe. Ele já estava começando a achar que isso era do mau
nome, já que na sua antiga escola também conhecia um Philip que não parava de
falar um minuto, parecia mais uma metralhadora de bobagens.
- Cara, pode sentar aqui. Nosso canto é igual coração de
mão...
- Cala a boca Felipe. – um dos amigos gritou.
Pedro se sentou, meio desconfortável. Mas agradeceu por
estar ali, e não solitário no meio da sala, com todos o olhando. Estava
começando a notar que ia ser mais fácil ele se enturmar do que esperava. Não
que ele tivesse problemas, afinal ele nunca teve problemas. Diferente de
Felipe,que é outro exemplo que nós podemos usar de pessoas comuns aqui.
Felipe estava tendo que enfrentar a separação de seus pais e
ainda não sabia o que ele decidiria no tribunal – se teria de ficar com a mãe
ou com o pai. Ele extravasava todos os seus problemas rindo e tagarelando sobre
tudo e todos. Morava em uma casa boa, em um bairro nobre, mas agora estava
tendo que dividir um flat com a mãe até que as coisas se ajeitassem. Passava os
fins de semana na casa da avó.
O engraçado é que a sua família já estava toda adequada a
justiça, mesmo que o divórcio ainda não estivesse fechado, selado e
sacramentado. Mas ele não queria que fosse tudo daquele jeito. queria que tudo
fosse como era antes: o pai chegando do trabalho e o levando, juntamente com a
mãe, para o shopping ou para alguma coisa como teatro, boliche, o que fosse.
Mas não era assim.
escrito por Jéssica Mayra