sexta-feira, 23 de março de 2012

Capitulo I



        Era uma vez – não um era uma vez já esperado, longe disso-, uma história sem fadas, sem príncipes, sem abóboras ou sem sapatinhos de cristal. Uma história com pessoas comuns, que moram numa cidade comum e que têm uma vida comum. Pessoas que tem vidas separadas, mas que de uma forma ou outra se juntaram.
         Considere por exemplo, o Sr. Sanches. Ele mora em um prédio simples, perto do centro da cidade. Trabalha preso em um escritório o dia todo e quando volta pra casa gosta de comer Hot Pocket da Sadia e ler a revista Superinteressante – pessoas comuns, eu já disse. Ele estava muito bem,  e nem imaginava que a vida dele poderia mudar tanto de figura como mudou. Tudo graças ao seu filho, que passou um tempo fora do país, mas que decidiu voltar.
         Trouxe um monte de gente para o pequeno cubículo que estava acostumado a não ter mais vida. Trouxe amigos, cachorro, periquito, papagaio e um monte de músicas barulhentas e instrumentos musicais. Trouxe também a esposa do Sr. Sanches, que a tanto não via. É incrível como adolescente inconsequentes conseguem juntar um monte de poeira do passado esfregar como creme em todo mundo.
         Prometeu colocar o filho para terminar o ensino médio em uma boa escola. E de preferência em período integral. O intercâmbio não havia feito bem para os miolos do garoto, e deixar ele sozinho em casa durante muito tempo não daria certo. Porém a escola em período integral estava fora de suas possibilidades. Decidiu matricular Pedro numa das melhores escolas da cidade. O garoto não gostou. Disse que estava bom do jeito que estava, e que, por ele, ele nem voltava mais ao Brasil. “Você vai e ponto”, palavras firmes são a alma do negócio pai e filho.
         Fechado. Papelada assinada, materiais comprados – não muitos, afinal Pedro não era mais uma criança que precisava de giz de cera e massinha de modelar. Embora não quisesse, estava ansioso para o primeiro dia de aula. Gostava de conhecer gente nova – se não fosse por isso, nunca tinha ido para os EUA.
         O velho Sanches acordou Pedro cedo na quinta-feira – consideravam mania de escola boa começar as aulas no meio da semana – e disse que ele tinha que levantar porque, se não, perderia o ônibus. Convenhamos que o garoto estava totalmente desacostumado a latas de sardinha sustentadas por quatro rodas. Mas ele não teria outra opção, se não pegar o primeiro ônibus via sua escola.


escrito por Jéssica Mayra

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