Era uma vez – não um era uma
vez já esperado, longe disso-, uma história sem fadas, sem príncipes, sem
abóboras ou sem sapatinhos de cristal. Uma história com pessoas comuns, que
moram numa cidade comum e que têm uma vida comum. Pessoas que tem vidas
separadas, mas que de uma forma ou outra se juntaram.
Considere por exemplo, o Sr. Sanches. Ele mora em um prédio
simples, perto do centro da cidade. Trabalha preso em um escritório o dia todo
e quando volta pra casa gosta de comer Hot Pocket da Sadia e ler a revista
Superinteressante – pessoas comuns, eu já disse. Ele estava muito bem, e nem imaginava que a vida dele poderia mudar
tanto de figura como mudou. Tudo graças ao seu filho, que passou um tempo fora
do país, mas que decidiu voltar.
Trouxe um monte de gente para o pequeno cubículo que estava
acostumado a não ter mais vida. Trouxe amigos, cachorro, periquito, papagaio e
um monte de músicas barulhentas e instrumentos musicais. Trouxe também a esposa
do Sr. Sanches, que a tanto não via. É incrível como adolescente inconsequentes
conseguem juntar um monte de poeira do passado esfregar como creme em todo
mundo.
Prometeu colocar o filho para terminar o ensino médio em uma
boa escola. E de preferência em período integral. O intercâmbio não havia feito
bem para os miolos do garoto, e deixar ele sozinho em casa durante muito tempo
não daria certo. Porém a escola em período integral estava fora de suas
possibilidades. Decidiu matricular Pedro numa das melhores escolas da cidade. O
garoto não gostou. Disse que estava bom do jeito que estava, e que, por ele, ele
nem voltava mais ao Brasil. “Você vai e ponto”, palavras firmes são a alma do
negócio pai e filho.
Fechado. Papelada assinada, materiais comprados – não
muitos, afinal Pedro não era mais uma criança que precisava de giz de cera e
massinha de modelar. Embora não quisesse, estava ansioso para o primeiro dia de
aula. Gostava de conhecer gente nova – se não fosse por isso, nunca tinha ido
para os EUA.
O velho Sanches acordou Pedro cedo na quinta-feira –
consideravam mania de escola boa começar as aulas no meio da semana – e disse
que ele tinha que levantar porque, se não, perderia o ônibus. Convenhamos que o
garoto estava totalmente desacostumado a latas de sardinha sustentadas por
quatro rodas. Mas ele não teria outra opção, se não pegar o primeiro ônibus via
sua escola.
escrito por Jéssica Mayra
escrito por Jéssica Mayra
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